terça-feira, 24 de abril de 2012

Meu interior

Noite fria! Acordei!
Ambiente estranho
Sensação estranha
Estranho prazer

Em meu quarto não me encontrava
Susto!
Sobre uma tumba estava
Sob mim o mármore jazia frio

Quem repousaria ali?
Atenderia se eu chamasse?
Mas o seu nome não sei
Deixo como está

Como fui parar naquele lugar?
A resposta não se demorou
Em minha cama continuava
Apenas minha mente espreitava

Aquele sombrio lugar
Nada mais era que o meu negro interior
Semelhante ao repouso dos mortos
Mas que bem vivos estão!


*Aermo Wolf

Meu coração chora


Nessa viagem sem destino
Nunca me observa
Conversa com outros ao redor
Minha alma se desespera

Gostaria de sua atenção merecer
Conversar. Brincar. Dialogar. Amar
Sentir meu frio coração aquecer
Não mais me desesperar. Melhor seria lutar

É mister reconhecer que sua atenção não mereço
Sou apenas um estranho lutando para sobreviver
Em um mundo repleto de hostilidade
Tento não desvanecer

Longa e cansativa é a luta
Sem fim o desespero
Meu coração chora ante toda essa labuta
Mas de pé permaneço e encaro a luta
*Aermo Wolf

domingo, 22 de abril de 2012

Um novo conto.


Momento de desolação


A aula havia acabado. Como de praxe saiu da sede do cursinho de inglês localizado em um bairro nobre, do outro lado da cidade, muito longe de onde mora, mas ainda assim rejeitou as caronas dos amigos, preferia caminhar. “Caminhar à noite é sempre muito bom”, pensa. Usa os fones de ouvido escutando melodias variadas, mas com grande preferencia para as músicas das bandas de rock, algumas são características de quem está sofrendo por alguém.

São 19h15min, o clima está agradável, uma brisa corre pelo seu rosto proporcionando uma boa sensação. As ruas e avenidas, apesar de se localizarem na região central da cidade, estão pouco movimentadas. É mês de janeiro, as aulas das escolas públicas e particulares ainda não começaram. O comércio já está fechado, explicação para o pouco movimento. A maioria das pessoas está em casa, jantando ou apenas curtindo preguiça em frente à tv. Outros podem estar nas casas dos amigos, jogando conversa fora. É uma terça-feira, o dia seguinte é dia de trabalho, o que teoricamente não permite compromissos que envolvam altas doses de bebidas alcoólicas.

Mauro segue caminhando, é um pequeno prazer esse longo trajeto até sua casa. De férias da graduação em Letras decidiu iniciar um cursinho em inglês, tão necessário hoje em dia. Para sua felicidade as aulas acontecem no finalzinho da tarde, duas vezes por semana, ocasião em que aproveita para essas caminhadas revigorantes. Aluno aplicado adora lê e escrever. Apesar de viver no século XXI sente-se como um romancista do século XVIII com toda exaltação ao amor. É um admirador inconteste de Johann Wolfgang Von Goethe, o escritor alemão. Não se limita apenas aos autores nacionais. Os pensamentos viajam, mas sempre retornam para uma pessoa, Lara. Colega de faculdade. Aplicada, inteligente, decidida, e aos seus olhos, muito bonita.

Mauro não é o tipo que leva jeito com as meninas, teve poucos relacionamentos na vida, mas tem certeza de que gosta muito de Lara, e mais certeza ainda de que ela não lhe dá a mínima. Apenas um ano mais nova do que ele, demonstra a mesma resolução quanto ao futuro. Quer ser professora. Também ama literatura.

Mauro é um romântico assumido, o último deles, mas infelizmente, não é bom com iniciativas junto às meninas. Fruto de uma timidez difícil de eliminar. Fala maravilhosamente bem em público, mas se engasga quando chega perto da personificação do amor idealizado.

Todas as noites depois do cursinho de inglês passa em frente à nobre residência onde ela vive na expectativa de vê-la “acidentalmente”. Isso raras vezes aconteceu. E nessas poucas vezes ela parece não tê-lo notado. Talvez naquela noite seja diferente. Talvez Lara o veja e ele decida-se a cumprimenta-la, ser mais ousado e dizer-lhe uma gentileza. Um “boa noite” que seja, ou um “como vai”. Assim nasceria uma amizade que em um futuro próximo, sim, muito próximo, possa redundar em romance. Em um belo romance à moda antiga. Conhecendo os pais da namorada, falando de suas intensões, levando presentes, cartões, tudo a que alguém apaixonado faria.

Entra na rua onde a casa de Lara se endereça. Casas grandes, bem adornadas, típicas da classe média alta que vive aos amores com o sistema capitalista. Caminha. Começa a suar um pouco, o coração bate mais forte. Toma o “cuidado” de seguir pelo lado oposto ao da casa dela. Quem sabe Lara não aparece hoje? Quantos jovens tímidos já não viveram essa situação? Aproxima-se. A cabeça se alterna entre abaixada e resoluta, sempre olhando para o lado esquerdo com o canto dos olhos.

O portão bege da casa onde ela vive se abre. Ela aparece. Está linda. Como sempre, no entanto mais arrumada do que o habitual. Será que vai sair? Lara olha fixamente para o outro lado da rua como se aguardasse alguém. Os seus cabelos loiros estão soltos.

Luzes dos faróis de um carro aparecem ao fim da rua. Aproximam-se rapidamente. Começa a diminuir a velocidade. Diminui ainda mais. Para em frente à casa dela. Um Honda Civic prateado. Lindo. Uma joia de nosso sistema excludente. Não dá para vê quem o dirige, se é conhecido ou desconhecido. Com certeza desconhecido, já que Mauro não tem amigos ricos ou de considerável condição financeira. Os seus poucos amigos vivem modestamente, como ele, e os que têm carros, os tem em modelos populares. Realmente não deve conhecê-lo, e ainda assim, que diferença faria?

Mauro está muito próximo não consegue mais desviar o olhar. Fixa-se na cena à sua frente. A rua está quase deserta. Algumas pessoas sentadas em calçadas, conversando futilidades e na certa falando da vida alheia. Continua caminhando. Lara fecha o portão com um sorriso no rosto. Desce da calçada. Olha-o por um momento e diz: “Oi”. Faz um aceno com a mão direita para Mauro, que responde da mesma forma. Ela abre a porta do carro e entra. Dentro do veículo se forma um conhecido vulto de dois rostos que se encontram. O Honda Civic arranca irresponsavelmente. Em segundos está no final da rua, vira à equina, desaparece.

O coração do jovem tolo bate freneticamente. Uma sensação horrível se apodera de seu corpo. Tem apenas um sentimento: frustração. Não é a primeira vez que sente isso, e não será a última. De cabeça baixa, segue. Está sem folego. Como foi tolo em fantasiar. Que decepção, por muito tempo vinha sonhando com aquela menina. Por quanto tempo? Talvez todo o semestre anterior, quando começaram a estudar juntos. Mas no fundo do seu coração sabia que não teria chances. Sabia que não valia a pena sonhar. Seu coração está dilacerado com aquele momento de desolação que o transportou à dura realidade desta vida. Está triste. Sabe que naquela noite escreverá.

FIM.

*Aermo Wolf

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Breve espaço para um conto.


Encontro póstumo



Parado em frente à morada fúnebre de tantos, Fábio apenas observa. Àquela hora ninguém mais pode ser avistado, são 00h30min. A rua está deserta. Ele olha e contempla as paredes brancas do pequeno cemitério rusticamente pintadas. Decide adentrar. O portão enferrujado, marcado pela ação inclemente do tempo, está apenas encostado. Cautelosamente entra, mas sem medo. Não, nesse momento seu coração desconhece esse sentimento. Entra. Túmulos espalhados desordenadamente dificultando os passos das visitas regulares dos vivos que buscam conforto em rezar pelos seus mortos. Fábio caminha lentamente. Árvores vivas e principalmente as mortas com galhos secos e retorcidos adornam o cemitério, dando-lhe um aspecto mais sombrio. Ri das pessoas supersticiosas que temem lugares como aquele até à luz do sol, imagine com a fraca luz da lua.

Lembra-se das histórias de almas e espíritos, dos barulhos estranhos que muitos juram ter ouvido. Existem poucas casas nas redondezas e para aqueles que gostam de uma estorinha de assombração é só procurar alguns dos moradores, estão sempre dispostos a relatar as supostas experiências sobrenaturais que vivenciaram. Fábio já foi muitas vezes àquele local, muitas vezes desde a morte de sua noiva, Ana, ou Aninha como chamava carinhosamente quando estavam a sós. Já faz mais de um ano desde que ela perdeu tragicamente a vida, vítima da bala de um louco durante um assalto. O assassino foi preso e diferentemente do que acontece na maioria dos casos semelhantes neste país, permanece preso. Fábio gostaria de tê-lo matado. Expressou várias vezes o seu ódio. Assim que recebeu a trágica ligação parou a conversa que estava mantendo com os amigos e saiu desesperadamente. Chegou ao hospital, para onde foi levada, em questão de minutos. Com um tiro no peito Ana não resistiu. Naquela noite o desespero o consumiu. O casamento seria para dali a três meses. Como o destino prega tristes peças.

Já se passou mais de um ano, e não esquece. Naquele dia em especial decidiu visitar o túmulo da noiva à noite. Ainda a ama. Não teve nenhum relacionamento desde o acontecido. Tantas vezes ouviu “esquece”, “segue com a sua vida”. Seguiu. Mas ela ainda adorna os seus pensamentos. Trabalha. Estuda. Mas não se diverte. Um amor digno das peças de Shakespeare. Está diante do túmulo da noiva. Sempre trás flores. Não ascende velas, pois não é católico e não tem religião. Mas no seu íntimo gostaria de ter em que acreditar. Gostaria que os mortos pudessem voltar. Queria o que todo mundo quer ao perder um ente querido, dizer ao menos pela última vez que a ama. E que sempre a amará.

Para. Observa a foto de sua linda noiva posta acima do túmulo. Cabelos negros e pele branca. Nariz pequeno. Traços delicados. “Como eu te amei”, sussurra de olhos fechados. Uma lágrima corre pelo canto do seu olho direito. Não a pôde conter. Mais uma, dessa vez pelo olho esquerdo. Chora. Não emite ruídos, apenas chora. Leva as duas mãos ao rosto. Ainda a ama muito.

Parado, em pé, ante o túmulo, sente um pequeno sopro no ouvido direito. Vira-se de olhos arregalados. A face molhada. Nada vê. Volta o olhar para o túmulo, e do lado direito vê alguém familiar. Com a face serena Ana o contempla. Ele está incrédulo. Isso não é possível. Ela está morta. Sente medo. Porém o desejo de conversar é maior:

- Ana? Como?

- Ouvi teu choro. Te observo desde o ocorrido. Siga em frente. Continue com a sua vida.

- Não consigo. Você está em meus sonhos.

- Eu estou em você e sempre estarei.

- Eu queria ter te dito pela última vez que a amo muito e sempre amarei. Me fez muito feliz. Está em meu coração.

Caminhando em direção a Fábio, ela envolve os alvos braços em torno do seu pescoço. Puxa o rosto dele para junto do seu e diz:

- Saiba que o teu amor me proporcionou paz de espírito. Parti feliz por saber que enquanto vivia fui a tua felicidade. Continue a viver por nós dois. Eu te amarei eternamente.

Os lábios se tocam. Um beijo breve que poderia ter perdurado por toda a eternidade. Lágrimas correm dos olhos fechados de Fábio. Ana desprende os braços e se afasta. Some. Uma sensação estranha envolve o coração de Fábio. Paz? Paz. Há muito tempo não sabia o que era isso. Olha mais uma vez o túmulo. Leva a mão direita ao peito esquerdo. Os batimentos cardíacos estão mais lentos. Normais. Baixa a cabeça. Olhos fechados. Um pequeno sorriso no canto direito da boca. Sussurra o nome de Ana. Ergue a cabeça e vira-se. Vai embora. Agora sabe que pode continuar a viver. Sem remorso. Nem peso na consciência. Ela tinha certeza de seu amor.

Parada em pé ao lado da sepultura, Ana o observa se afastar. Está feliz com aquele encontro póstumo. A face serena. Então desaparece.


FIM.

*Aermo Wolf

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Fuga

Demorada a viagem está
Muitas conversas fúteis de pessoas que jamais vi
Nada quero além de atingir meu destino
E mover-me para longe de tais seres.

Será que no lugar errado eu nasci?
Ás vezes isso me ocorre com tanta frequência
Será que na época errada vivo?
Disso não duvido.

Em situações tais
Apenas a música me oferece a possibilidade de fuga
Os fones de ouvido coloco. Aciono meu aparelho.
Os olhos fecho e viajo internamente nos meus delírios

O triste e melancólico som do piano me aquece a alma
Pelos ouvidos a música chega à minha mente
Por todos os poros do meu extenso corpo eu a posso sentir
Maravilhosa sensação.

Letras fortes que retratam o meu interior
Se vocês, seres que ao meu lado estão, escutassem o que eu escuto
Converter-se-iam à maravilha da bela música
De fato não sou desse tempo

Minha mente volta para épocas que não vivi
Todo de negro me imagino
Um piano negro de cauda à minha frente
Eu o toco

Em meio à edificações antigas e pouco iluminadas me encontro
Não poderia estar em lugar melhor
Desligo a música. Abro os olhos. A fuga dessa irrealidade acabou
À minha frente a paisagem urbana com as pessoas que não conheço.
Retornei.

*Aermo Wolf
Na última morada


Uma noite fria escura e sombria
Como gosto
Nada a fazer em minha morada
Sair decido

Vagando desolado pelas ruas escuras
Ruídos distantes de veículos automotivos escuto
Mantenham distância, por favor, a ninguém quero ver.
Tarde da noite está, por isso decidi me aventurar.

Como uma ave noturna, percorro as ruas
Não voo, apenas em meus pensamentos
As ruas desoladas eu percorro
Os moradores tão bons e probos dormindo devem estar

Continuo.
Ao longe uma morada diferente avisto
A última morada dos infelizes que por este mundo passaram
Por que não? Aquele lugar quero visitar

Adentro.
Caminho sem rumo
Túmulos por todos os lados
Procuro alguma coisa?

Observo
Nada vejo
Um ruído escuto

Querem os mortos comunicação?
Talvez sim. Talvez Não.
Mover-me? Não tenho vontade
Agradável aqui está

Paro.
Nada vejo.
Pergunto: Alguém aí está?
Nada escuto

Nada escuto
Nada vejo
Nada sinto
Nada faço. Apenas olho o ser imaterial que à minha frente está.

*Aermo Wolf

terça-feira, 17 de abril de 2012

Incompreendido

Incompreendido sigo esse caminho tortuoso
O caminho da solidão é o meu caminho
Ninguém ao meu lado está
Não tenho amigos. Não tenho guias

Incompreendido, caminho, tropeço, não caio
Cabeça abaixada eu sigo
Por que as pessoas tem de julgar naturezas diferentes como a minha?
Por que tem de ser tão mesquinhas?

A dor aperta meu peito
Lágrimas aos meus olhos querem vir
Incompreendido sigo por esse caminho
Escuro o caminho está

Nada vejo, mas sigo
As risadas de outra hora me dão motivação para continuar
Almas pobres desprovidas de sentimentos
Almas mortas que a nada sentem cuja ganancia contaminou

Nada vejo, mas sinto e mesmo incompreendido sigo meu caminho
“Luz no fim do túnel”, não sei se encontrarei
Talvez não encontre e isso nenhuma preocupação me trás
Pois sei que mesmo incompreendido continuarei a seguir meu caminho.

*Aermo Wolf